Antes e depois de um certo dia

29 outubro 2009 por Fernando Aureliano, 13 Comentários
Antes e depois de um certo dia

Em algum dia da semana, em uma determinada época de minha infância, eu comecei a ficar inclinado a ter algumas atitudes que, para mim, e para quem estivesse de fora visse, pareciam bem estranhas. De repente, senti que minhas unhas não poderiam ter nenhuma falha. Eu tinha cerca de 8 anos de idade, não tinha a menor vaidade sobre nada. Tanto que o importante não era ter as unhas bonitas, apenas que elas não deveriam ter sulcos ou pontas que prendessem no cobertor, por exemplo. Isso é até um tanto quanto natural, até eu começar a ficar completamente obcecado por isto. Não podia perder tempo procurando um cortador de unhas, sejam as dos pés ou das mãos, se não estivessem como deveriam, aquilo precisava ser resolvido imediatamente. Comecei a arranca-las a mordidas. Mordia minhas unhas até elas sangrarem, e mesmo assim, se ainda não estivessem “perfeitas”, eu continuava, com o gosto do sangue em minha boca. Mal sabia eu que este era o início de um problema com o qual eu teria que conviver durante toda a minha vida.

O desejo compulsivo de manter o fio de minhas unhas sempre lisinho nunca desapareu. Após o início dessa necessidade compulsiva, vieram as obsessões, que ao contrário do que algumas pessoas pensam, não é como se fosse um sonho acordado, ou apenas um desejo. Para mim, está mais para um delírio consciente ou uma realidade virtual. A maioria das vezes eu sei que estou em uma determinada realidade, mas mergulho num evento gerado por uma espécie de “inconsciente ativo”, que tenta me controlar. Daí vem as obsessões: Percebo uma ideia ou um pensamento que me ocorre, e é como se mergulhasse nisto, mas não como um salto olímpico, é mais como uma queda desajeitada dentro de um lugar que não escolhi estar, e de onde é difícil sair. Essas ideias e pseudo-realidade começam a cercar minha consciência e começo a me sentir claustrofóbico por esses pensamentos que me apertam cada vez mais. É como se estivesse, a cada momento, mergulhando mais fundo dentro deste abismo. Como se não bastasse estar nessa situação, as próprias ideias que me cercam são ainda mais pavorosas que a própria situação em sí. E num dado momento, um desses “monstros” parece querer fazer um pacto comigo. Percebo que é como se, o tempo todo, essa fosse a intenção de meu subconsciente. É como fazer um pacto com o diabo, mas o que ganho não é algo que não tinha, apenas retomo a liberdade da minha mente. Ela pede que eu faça algo ridículo em números pares, ou que toque no mesmo lugar de meu corpo em um determinado local o qual havia tocado antes. Quando percebo isto, parece ser um pequeno preço a se pagar para libertar a minha consciência daquela situação. Eu faço, e é como se ficássemos quites. Daí, posso partir em paz, pelo menos por enquanto.

Demorou um tempo até eu perceber que estava sendo chantageado o tempo todo pela minha própria razão. O primeiro pensamento que me ocorre é que eu estou ficando completamente louco. Penso que se pedir ajuda irão me internar na hora, irão apontar o dedo para mim e me chamar de louco, afinal, lembrem-se, eu não havia chegado nem aos dez anos ainda.

A missão agora é encontrar uma forma de não enlouquecer de vez, tentar controlar essas situações de algum modo. Mas cada vez que meu subconsciente aparece para me chantagear por algo que parece tão pouco, ele é sempre mais poderoso do que eu me lembrava, daí começo a me viciar, porque afinal, ele não parece pedir muito. Mas o preço começa a ficar cada vez mais alto, as pessoas começam a notar, e a cada vez preciso me esforçar mais para pagar o valor dessa chantagem.

Tudo é gradual, de forma que vou me acostumando com esses rituais obrigatórios para me livrar daquela “cela”. Mas existe outro fator: o trauma. A “realidade virtual” e os pensamentos a que sou impelido pela minha mente são poderosos e cada vez mais violentos. Num dado momento, é como se eu não caísse mais naquele abismo, mas como se todo o meu mundo estivesse dentro dele. Não posso mais fugir daquelas ideias, agora os rituais servem apenas para fazer com que elas se afastem por algum tempo, e esse intervalo também fica cada vez menor. Num instante de poucos meses já sou uma marionete das minhas obsessões, e o pior de tudo, é que eu não faço a menor ideia de que tudo isto é uma doença. Estou em silêncio, sozinho e apavorado por tudo aquilo que presencio todos os dias o tempo todo dentro de minha cabeça. E eu já percebi que não há saída.

Com o tempo, as coisas não ficam melhores, mas você se acostuma. Acaba se tornando íntimo de seus próprios rituais e seu corpo começa a reagir automaticamente as situações, pelo menos na maioria das vezes, quando é um ritual simples. Eu cheguei em um ponto em que não discutia mais com a razão de minhas compulsões. Eu aceitava as obsessões sem distinção, e apenas às realizava logo, para me livrar daquilo e continuar com minha vida.

“Apenas mais um momento de ‘loucura’ e continuo com minha vida”, pensava eu. Eu já havia aceitado estar preso no abismo de minhas obsessões e compulsões: “Essa manhã, só terei tempo de salvar 3.000 vidas, a tarde eu cuido do planeta”. É como se o destino do universo dependesse única e exclusivamente de minhas compulsões. Minhas obsessões faziam com que pensasse que todas essas situações fossem realmente acontecer, apesar de eu nunca acreditar em nenhuma delas. É assim que funciona: eu sei que nada do que minha cabeça diz vai realmente ocorrer se eu não fizer determinada coisa. Eu não acredito em nada disso, mas ao mesmo tempo, eu tenho que fazer os rituais, para que nada disso aconteça. É uma situação bem surreal e complicada de se fazer compreender em palavras, mas basicamente, é assim que funciona. Eu acabei aceitando que o destino da humanidade, planeta, universo e tudo o mais, cabia apenas a um movimento de um determinado músculo da garganta, que eu fazia pela manhã, ou pela quantidade de vezes que acendia e apagava as luzes da sala, antes de entrar em casa. E para mim, com o tempo, isso ficou bem natural. Assim fui seguindo com minha vida, até um dia em que sentei no sofá de um lugar qualquer, onde ví uma mulher qualquer na capa de uma revista qualquer de fofofcas, e que comecei a folhear. Por mais fútil que possa ter parecido esse momento, minha vida realmente se dividiu em antes e depois desse dia. Foi quando descobri que, na verdade, eu não tinha “super-poder” nenhum, e sim uma doença complexa e pouco compreendida. Nesta revista havia uma matéria de uma atriz que tinha todos os meus sintomas, e a matéria chamou isso de TOC, Transtorno Obsessivo Compulsivo. Acho que nunca em minha vida eu senti tanto alívio.

A descoberta de que meu problema era uma doença foi algo bom, por descobrir que não estava sozinho, nem que eu era um louco completo. Por outro lado, a medida que fui pesquisando cada vez mais e mais a respeito, e consultando psicólogos, descobri que não havia cura para o meu problema, além de também descobrir de esse ser o motivo que fazia com que eu fosse tão agitado. De qualquer forma, descobri que se eu direcionasse toda essa agitação em uma tarefa, poderia “burlar” minhas obsessões, ocupando a minha mente. Hoje pareço muito mais maluco do que no começo, passo o dia inteiro fazendo todo o tipo de coisas, trabalhando direto, inventando projetos pessoais e executando todas essas tarefas enquanto realizo algumas de minhas compulsões. Por outro lado, o fato de direcionar alguns dos efeitos colaterais dessa doença, como a hiperatividade, me fez aumentar a qualidade de vida, além de garantir que eu pensasse menos a respeito e tivesse menos “visões” violentas. Hoje, estou longe de ser uma pessoa normal, mas quem é? Levo minha vida da forma como me acostumei. Direciono minhas ideias para o que gosto, e com isto, consegui entrar em uma espécie de harmonia com minhas obsessões e compulsões. Neste momento, sou apenas mais um estranho dentre a multidão.

13 Comentários para “Antes e depois de um certo dia”

  1. Carol 16 novembro 2009 at 3:57 pm #

    Uau… corajoso. Acho que vou seguir seu exemplo e procurar ajuda.

  2. sharleen 18 novembro 2009 at 5:07 am #

    É exactamente isso… foi bom ler este texto e realmente sentir que não estou sozinha com este tipo de sentimentos e obsessões..

  3. Ana 27 novembro 2009 at 1:31 pm #

    Olá boa noite!
    Sou estudante universitária portuguesa de Psicologia, e no meio das minhas pesquisas para um trabalho, sobre a perturbação e a personalidade obsessiva-compulsiva, vim parar ao seu blogue.
    Adorei ler este texto, nada se aproxima mais do que uma pessoa com esta perturbação sente! As teorias sobre a doença não nos conseguem fazer chegar tão perto dos sentimentos de um obsessivo-compulsivo como estes relatos!
    Por isso, gostaria de lhe perguntar se me dá autorização para ler um pouco do seu relato na apresentação do meu trabalho. Era uma forma de dinamizar a apresentação e de ajudar à compreensão da doença.
    Agradecia-lhe muito!
    Aguardo resposta!

  4. Fernando Aureliano 27 novembro 2009 at 1:47 pm #

    Olá, @Ana. Fique a vontade para usá-los onde quiser, desde que cite a autoria ;)

  5. Ana 28 novembro 2009 at 10:19 am #

    Certo, muito obrigada então ;)

  6. Rui 8 janeiro 2010 at 4:02 pm #

    Caro “colega”, o seu texto é de facto impressionante. Eu sinto cada palavra que li e reconheci tudo o que foi dito em mim mesmo. O que mais me assustou e que eu totalmente desconhecia era o facto de o TOC ser uma doença incuravél. Eu tenho tentado lutar contra isto, todas as noites, tento evitar, mas o medo é a razão de muitas coisas, simplesmente não devemos ligar e ignorar. Com este texto apercebi-me que vou ter de me controlar ainda mais e eu sei que consigo, porque o TOC é tudo parte da nossa mente. Só existe o que se cria, e cada um de nós criou isto. Sim, não nego, todas as noites antes de me deitar confirmo se as portas tão fechadas 3 vezes(você é os pares eu sou os impares), confirmo a tranca da janela, faço os 4 cantos do tapete, apago a luz 3 vezes, eu até já cheguei a inventar cantos num tapete redondo. Também tenho um grave problema mas vou combate-lo, e nós conseguimos combate-lo. Eu acho que era uma óptima ideia criar um grupo on-line de pessoas que têm TOC e pessoas que já tiveram TOC. Porque vi num programa que um homem tinha TOC e curou-se com ajuda de uma instituição que não me recordo o nome. Temos de nos unir, dialogar e sobretudo resolver esta doença.

    Cumprimentos.

  7. Leandro 18 março 2010 at 4:28 am #

    Olá a todos.
    Sento exatamente os mesmos sintomas relatado nesse site.O que mais me preocupa são as consequencias que essa doença maldita traz ou ainda trará a minha vida social e animica.Fico o tempo todo tentando me desempedir desses pensamentos obsessivos e crueis que dificultam o processo intelectual de minha mente da forma mais correta e livre sem me atrapalhar.Entro em confito com minha própria mente todos os dias.Mas não vo desistir de lutar contra.Se você autor do relato poder me da alguma dica de como se desempedir ou viver mais harmonicamente com esse problema me envie nesse site ou no meu email por favor.Grato!
    E bons ventos para nós.

  8. Ana 19 março 2010 at 8:00 am #

    olá a todos. através do que aprendi no semestre passado numa cadeira de Psicopatologia (estou a frequentar o curso de Psicologia), O TOC é um transtorno da ansiedade, vocês têm que procurar ajuda psicológica, procurem um bom psiquiatra e/ou um bom psicólogo que vos irão ajudar a viver com essa doença, com qualidade de vida! porque sozinhos vai ser impossível (ou pelo menos quase) contrariarem as obsessões que teimam em não desaparecer… a sério, não perdem nada em procurar ajuda psicológica, muito pelo contrário, só ficam a ganhar :)
    força aí, fico a torcer por todos vocês!

  9. Fernando Aureliano 4 abril 2010 at 7:45 am #

    @Ana, Dou sempre esta mesma orientação a todos que visitam este blog, mas não pense que por passar 6 meses estudando psicologia numa universidade você terá a solução para o nosso problema. Acompanhe e colabore de forma progressiva, e não genérica. Ja tem gente demais confundindo a pessoas como nós que sofremos desse problema. Obrigado.

  10. Fernando Aureliano 4 abril 2010 at 7:47 am #

    Olá, @Leandro. Neste blog tem todas as dicas que posso dar a vocês, por isso que o fiz. Continuarei dando outras dicas e orientações em novos posts que continuarei fazendo, basta acompanhar o blog. Obrigado.

  11. Ana 5 abril 2010 at 6:54 am #

    correcção: estudo psicologia vai para 4 anos, tive foi 1 semestre apenas sobre psicopatologia… o que sei é que a doença que vocês têm não é do vosso controlo, por isso digo + 1 vez, procurem ajuda psicológica, é o melhor que fazem… há coisas em que não basta ter força de vontade, essa força no vosso caso serve sim para procurarem ajuda, não tem mal nenhum procurar ajuda! boa sorte para todos!

  12. Anna 7 junho 2010 at 7:38 am #

    olá a todos, eu tb tenho toc, desde criança,os meus principais sintomas:olhar debaixo da cama a noite quando vou dormir varias vezes,ver se a torneira ta desligada, olhar se o gás ta desligado,se a porta ta mesmo fechada,só que varias vezes.tb tenho uma sensação ruim de que tem alguem atrás de mim,ou debaixo da cama e que poderá me fazer um mal.e ainda tenho obssessao por limpeza, lavo as mãos exageradamente,chega ficar aspera.eu tenho sofrido muito com isso.só agora depois de visitar este blog,estou mais aliviada,em saber que não sou a unica pessoa que tem este MALDITO TOC.vou lutar com todas as minhas forças e com certeza vencerei e serei uma pessoa feliz,tb desejo a todos o mesmo,um grande abraço.

  13. Toc master Brazil 23 julho 2010 at 2:05 am #

    ola a todos! Primeiramente gostaria de dizer que sou brasileiro, e no que se refere ao texto acima escrito, tenho a plena convicção de que foi o melhor texto ja escrito sobre o TOC e por alguem com TOC. Me identifiquei palavra por palavra com o relato descrito, pessoal tenho TOC a mais de 15 anos e com o passar dos tempos compreendo mais e mais essa, digamos, fraqueza. O TOC é realmente tudo isso, é algo que sabemos que não tem fundamento seja cientifico, religioso e sim algo puramente mental, penso que os grandes homens do futuro serão somente aqueles que conseguirem dominar a propria mente, pois quem domina a mente, dominara tudo. Gostaria de parabenizar o autor por este texto-relato e dizer que com certeza ajudou e ajudará muitas pessoas a se auto-compreender mais a respeito do TOC, algo que adquirimos ao longo de nossas vidas e diariamente batalhamos contra ele seja com rituais ou ajuda medica. Posso citar um livro muito bom de um medico psiquiatra brasileiro que é direcionado aos profissionais e pacientes. O nome do livro é TOC – MANUAL DE TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL
    PARA O TRANSTORNO OBSESSIVO-COMPULSIVO
    autor: Aristides V. Cordioli e passo tambem este link que possui mais alguns livros relacionados ao TOC http://www.ufrgs.br/toc/livro.htm
    espero poder ter contribuido um pouco com todos aqueles que como eu convive diariamente com o TOC

    Abraço a todos e tenham fé, nao interessa em que ou quem, mas tenham fé! email/msn: toc_master@hotmail.com


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