vontade

Arquitetos do desejo, ou a teoria da vontade

Por natureza, o ser humano não gosta de fazer uso daquilo que não fomos nós mesmos que construímos ou idealizamos. Quando digo “nós”, me refiro a uma individualidade do ser, que vem do todo poderoso ego. Nada é tão bom se não foi feito por nós mesmos, e nossos desejos individuais não valem a pena serem saciados se não o forem exatamente da forma como queremos. Foi-se o tempo em que nossa raça acreditava ser a imagem e semelhança de algo supremo. Hoje isto não basta, queremos ser, nós mesmos, a própia supremacia. Construímos vontades que nunca existiram antes, vontades que geram desejos tão poderosos quanto a sede. Somos os arquitetos do desnecessário.

Até dezenas de anos atrás tinhámos a curiosidade, o desejo do conhecimento e a vontade de vitória. Pare por um segundo e veja como essas qualidades foram deturpadas hoje em dia. O que fizemos da curiosidade, do desejo e da vontade? Erguemos o palácio da irrelevância, pois nada mais é feito visando algo maior ou para o bem comum, apenas uma necessidade momentânia e casual. Em que transformamos nossas qualidades? Quanto vale um desejo puramente individual? Hoje em dia, com certeza mais que uma reflexão. Nosso ego se transformou na refinaria do inútil.

Uma paixão precisa ser da forma como pensamos, o encontro precisa ser com aquilo que buscamos. Exigimos que as pessoas nos ofereçam tudo o que queremos, da forma como queremos. Ninguém quer mais fazer uso do que existe, apenas do que é concebido e idealizado. O que fez com que nos sentíssemos tão poderosos? Até pouco tempo atrás a terra ainda girava em torno do Sol.

Essa cultura da vontade pode ser percebida até mesmo na tecnologia, onde tudo pode ser personalizado pelo usuário, uma exigência padrão dos novos consumidores. Um profissional com mais de 15 anos de experiencia desenvolve uma ferramenta, mas é claro que você vai reclamar muito caso não tenha a opção de personalização para que se possa destruir o trabalho dele. Veja por exemplo os jailbreaks que se fazem em dispositivos moveis de hoje em dia.

Antigamente, um ideal era visto com poesia, hoje ele vem com cobertura de imaturidade. Nos tornamos nisto, sempre fomos assim, ou apenas mimamos demais as necessidade básicas?

Por fim, acredito que o desejo vencerá a reflexão, pois é sempre mais fácil desejar e esperar.

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