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	<title>Obsessivo Compulsivo &#187; Crônicas</title>
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		<title>Eu, eu mesmo, e o outro…</title>
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		<pubDate>Thu, 31 Mar 2011 23:40:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[adaptacao]]></category>
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		<description><![CDATA[Me pego questionando se será mais difícil aceitar aquilo que se é, ou transformar-se em algo que nunca foi. Todos precisam que você mude para adaptar-se ao que os outros são, e esta metamorfose é necessária para manter-se aceitável. O problema é que nenhum é um só, existem três para cada um de nós.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class="socialize-in-content" style="float:right;"><div class="socialize-in-button socialize-in-button-vertical"><a href="http://twitter.com/share" class="twitter-share-button" data-url="http://www.obsessivocompulsivo.com/eu-eu-mesmo-e-o-outro/" data-text="Eu, eu mesmo, e o outro…" data-count="" data-via="pailoro" ><!--Tweetter--></a></div><div class="socialize-in-button socialize-in-button-vertical"><script>
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<h3>Eu</h3>
<p>&#8220;Esse&#8221; é aquilo que todos esperam e querem ver. O &#8220;Eu&#8221;, ou aquilo que preciso que você pense que sou. Não posso ser você nem outro, mas aquilo que as pessoas precisam ou esperam que eu seja. O &#8220;Eu&#8221; é quem todos conhecem, aquele que alguns amam e que muitos odeiam. Alguns adoram &#8220;Eu&#8221; pois é aquilo de que precisam, outros odeiam &#8220;Eu&#8221; pois ele é aquilo que precisaram ou não puderam ser. Esse é &#8220;Eu&#8221;, e com certeza você. Mas &#8220;Eu&#8221; sou mais, ele precisa ser mais, precisa manter-se e agradar, pois na selva ou na guerra, &#8220;Eu&#8221; é o provedor de todos os outros. &#8220;Eu&#8221; é aquele que você não quer, mas que precisa ser para todos. Um soldado da linha de frente, quase a prova de balas. E que sorriso… Todos amam &#8220;Eu&#8221;, todos querem e precisam ser &#8220;Eu&#8221;, e este precisa fingir que não conhece mais ninguém. E se Ele, o &#8220;Eu&#8221;, encontrar com os &#8220;outros&#8221; em qualquer situação, deve olhar para o lado e fingir que nunca os viu. Precisa preservar sua natureza. &#8220;Eu&#8221; não pode deixar de ser, ou seremos &#8220;todos&#8221; pegos, e a pena por não &#8220;ser&#8221; pode ser cruel, então seja sem temor, e desvie das balas como uma bailarina.</p>
<h3>Eu Mesmo</h3>
<p>&#8220;Eu mesmo&#8221; esconde-se sempre nos becos mais escuros, sempre com vontade de aparecer. &#8220;Eu mesmo&#8221; é uma espécie de ator que nunca consegue o papel principal. &#8220;Eu mesmo&#8221; quer ser, mas ninguém o aprecia, fica sempre pelos cantos esperando uma deixa. Enquanto alguns gostam de &#8220;Eu&#8221; todos detestam &#8220;Eu mesmo&#8221;, ele é cruel, arrogante e não merece atenção &#8211; é o que todos pensam. Qual é aquele que não prefere fingir que não existe &#8220;Eu mesmo&#8221;? Ele é detestável e presunçoso, mas melhor assim&#8230; Imagine se &#8220;Eu mesmo&#8221; pudesse sair por aí livremente? Que bagunça! Ninguém quer conversa com ele. Prendam-no em uma gaiola se for possível! Reprimam, espremam, condenem &#8220;Eu mesmo&#8221;! Não quero vê-lo por aí sendo um perigo para todo &#8220;Eu&#8221; que transita. E qualquer um que permita-o passear pelo zoológico merece total punição. É preciso maior ausência de consciência. Não o deixemos &#8220;ser&#8221;, senão onde esse mundo vai parar?</p>
<p>Uma coisa aprendi em todo esse tempo de vida: &#8220;Eu mesmo&#8221; é louco, e merece ser marginalizado, sim! Como pode alguém se deixar enlouquecer com tanta coisa boa na vida como carros semi-novos, shows de patinação e desfiles de sete de setembro? &#8220;Eu mesmo&#8221; é condenável, e nenhum de nós precisa dele. Joguem-no no calabouço se for preciso, não queremos vê-lo nunca mais…</p>
<h3>O Outro</h3>
<p>Esse só ouvi falar, mas um amigo meu tomou café com ele uma vez, e me disse que ele só quer &#8220;ser&#8221;. Odeia &#8220;Eu&#8221; e &#8220;Eu mesmo&#8221;, não vê a menor graça em nenhum dos dois, prefere outra coisa, algo mais interessante e que o complete, mas &#8220;O outro&#8221; não consegue encontrar. Ele observa, analisa, sintetiza, cria abstrações, mas não consegue chegar ao ponto de ser ele mesmo. Já tentou de tudo, mas nunca desistiu de sua jornada. &#8220;O outro&#8221; quer ir além e largar tudo que os outros desejam, afinal ele não é um fanfarrão, não quer pensar em si mesmo como algo que quer, mas como algo que poderia.</p>
<p>Uns dizem que ele nunca vai conseguir, outros falam que ele não para de tentar. Uma coisa é certa, &#8220;O outro&#8221; tem o mais destruidor de todos os sentimentos, a esperança. E parece este ser o único sentimento que consegue ter. Ele não é, nem foi, mas pensa que será, no dia que encontrar algo que talvez nem exista. Nenhum dos outros querem ser ele, mas é o único que realmente tenta ser algo a mais. &#8220;O outro&#8221; é um sonhador, quem lhe dera ter asas…</p>
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		<title>Check! Check! Check! Check!</title>
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		<pubDate>Fri, 10 Dec 2010 01:25:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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		<category><![CDATA[crônica]]></category>
		<category><![CDATA[elevador]]></category>
		<category><![CDATA[porta]]></category>
		<category><![CDATA[repetição]]></category>

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		<description><![CDATA[Chave na porta, olho pra trás. Esqueci algo? Luz, tornera e janela. O estabilizador ta desligado, pois lembro que chutei ele. Giro a chave, saio, tranco e cuspo na porta pra ter certeza de que vou lembrar que a fechei.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class="socialize-in-content" style="float:right;"><div class="socialize-in-button socialize-in-button-vertical"><a href="http://twitter.com/share" class="twitter-share-button" data-url="http://www.obsessivocompulsivo.com/check/" data-text="Check! Check! Check! Check!" data-count="" data-via="pailoro" ><!--Tweetter--></a></div><div class="socialize-in-button socialize-in-button-vertical"><script>
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<p>Chave na porta. Abre e fecha, abre e fecha. É claro que eu não precisaria fazer isso, mas é sempre bom garantir. Cortina fechada. Verifico tudo umas 4 ou 6 ou 8 vezes (números pares sempre!).  Observo o teto e desvio das rachaduras no chão &#8211; Sempre há rachaduras no chão, por menores que sejam. -  Me viro, olho o estabilizador de novo, viro o rosto pro lado, olho o estabilizador de novo, e de novo, e repito essa coisa imbecil 12 vezes. Então, quando estou já quase tonto, continuo em direção a saída.</p>
<p>Chave na porta, olho pra trás. Esqueci algo? Luz, torneira e janela. O estabilizador tá desligado, pois lembro que o chutei. Giro a chave, saio, tranco e cuspo na porta pra ter certeza de que vou lembrar que a fechei.</p>
<p>Botão, elevador e PIN! Ninguém. Entro, aperto o térreo e torço para ninguém aparecer. No sétimo andar tem velho, no quinto tem criança e mulher. Só em ter parado no sétimo já acho que o elevador vai soltar, cair e que vamos todos morrer. Todo mundo tenta encostar em mim. O velho toca no meu ombro e depois tira o catarro da garganta. Nojo da porra! Afinal, tem micróbios em toda parte hoje. Dou duas ombradas no velho. Encosto exatamente no local em que o ombro dele me encostou. Ele olha pra trás e depois encosto mais duas vezes.</p>
<p>Térreo! Entro e saio do elevador quatro vezes, as pessoas olham pra mim enquanto passo pela recepção me perguntando se fechei a janela e achando que vou ser atropelado por ter saído do trabalho em um horário ímpar.</p>
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		<title>Eterno Retorno</title>
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		<pubDate>Mon, 12 Jul 2010 23:46:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Toda vez que Friedrich Nietzsche falava sobre o eterno retorno, o que ele queria dizer, basicamente, era que na existência há um número limitado de fatos, e que geração após geração, a vida está sujeita a experimentar as mesmas coisas num ciclo o qual o caos não pode ter total controle. Mas eu me refiro a algo um tanto diferente.

Quando eu tinha seis anos de idade, algo estranho começou a acontecer comigo (e eu ainda estava longe da puberdade). Se eu saia em direção a algum lugar, ao retornar para minha casa, sentia uma incontrolável necessidade de percorrer o mesmo caminho. Mas era o mesmo caminho MESMO. Tentava inclusive, encontrar minhas pegadas para pisar no mesmo lugar. E em algum momento de minha infância, me tornei um especialista em pegadas. Na tentativa de reconhecer as minhas, eu tinha a necessidade de analisar cada uma. Com o tempo, comecei a sentir que poderia seguir o rastro de qualquer um numa floresta densa.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class="socialize-in-content" style="float:right;"><div class="socialize-in-button socialize-in-button-vertical"><a href="http://twitter.com/share" class="twitter-share-button" data-url="http://www.obsessivocompulsivo.com/eterno-retorno/" data-text="Eterno Retorno" data-count="" data-via="pailoro" ><!--Tweetter--></a></div><div class="socialize-in-button socialize-in-button-vertical"><script>
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<p>Quando eu tinha seis anos de idade, algo estranho começou a acontecer comigo (e eu ainda estava longe da puberdade). Se eu saia em direção a algum lugar, ao retornar para minha casa, sentia uma incontrolável necessidade de percorrer o mesmo caminho. Mas era o mesmo caminho MESMO. Tentava inclusive, encontrar minhas pegadas para pisar no mesmo lugar. E em algum momento de minha infância, me tornei um especialista em pegadas. Na tentativa de reconhecer as minhas, eu tinha a necessidade de analisar cada uma. Com o tempo, comecei a sentir que poderia seguir o rastro de qualquer um numa floresta densa.<span id="more-304"></span></p>
<p>Isso me perturbava, pois na época eu não entendia o que ocorria comigo (obvio). Mas enquanto ia comprar pão, me preocupando em deixar boas pegadas para poder identifica-las sem problemas na volta, e poder pisar exatamente no mesmo lugar onde havia pisado na ida, eu tentava imaginar o porque que aquilo estava acontecendo comigo. Imaginei que poderia ser uma experiência de um cientista maluco, e que aquela cidade inteira havia sido criada apenas para me testar. Que Matrix que nada, com sete anos de idade eu já estava completamente convencido de que minha realidade era simulada, e que todo o planeta havia sido construído apenas para que eu pudesse ser testado para alguma coisa. Nada era real. Eu me sentia como objeto de um evento que iria definir o futuro de toda uma existência.</p>
<p>Então, com apenas sete anos, o peso do mundo estava em minhas costas. Mas se tudo era apenas uma simulação, por que eu precisava, afinal, cumprir essas ordens? Se a civilização em que me encontrava era virtual, por que eu sentia tanto medo de, ao me desprender daquela &#8220;missão&#8221;, destruir tudo o que havia, já que não havia nada?</p>
<p>O fato é que, em apenas dois anos, passei de uma criança que não conseguia levantar da cama, devido a febre reumática, ao responsável por uma galáxia &#8220;virtual&#8221;, onde todos haviam sido implantados em meu cérebro para simular um mundo que não existia, em prol de um propósito que eu desconhecia. Me sentia um robô obedecendo comandos, mas eu também era um soldado rebelde, pois sempre questionava a voz que sussurrava ordens entre minhas idéias.</p>
<p>Um dia saí de casa e resolvi não fazer o mesmo caminho de volta. Daí entrei em pânico no meio do caminho. Tentei voltar para minha &#8220;trilha&#8221;, mas senti que tudo já estava perdido. Eu suava e caminhava rapidamente. Meus dentes rangiam e minhas esperanças desabaram quando em um determinado momento senti que já era tarde, e que tudo estava perdido. E se aquele mundo fosse real? E se eu tivesse acabado de matar bilhões de pessoas? Parecia que a qualquer momento o planeta iria começar a desmoronar.</p>
<p>Quando cheguei em casa, larguei os pães em cima da mesa, corri para meu quarto e esperei o momento em que o planeta se transformaria em poeira espacial. Passei todo o restante da tarde e noite ali, me odiando e prometendo que se tivesse uma segunda chance de salvar a humanidade, não iria desperdiça-la. Quando percebi que nada ia acontecer, agradeci a voz que falava em minha cabeça, e pelos próximos anos, nunca fiz um caminho diferente que pudesse colocar o planeta em perigo, sendo ele virtual ou não.</p>
<p>Essa foi minha primeira obsessão, e o início de uma luta diária para evitar que todo o planeta fosse destruído, ou apenas que alguns milhões de pessoas perecessem. Desde aquele dia, tudo o que pudesse acontecer seria culpa minha, e só minha.</p>
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		<title>Ônibus, pessoas e cutucões&#8230;</title>
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		<pubDate>Fri, 18 Jun 2010 23:53:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Gosto quando a parada de ônibus tem um número par de pessoas. Gosto principalmente quando não são muitas, porque não gosto de pessoas, mas gosto de observa-las quando estão em pequeno número. É um bom passatempo enquanto aguardo, mas aí é onde começam meus problemas&#8230; Gosto de ver os primatas, e não sei ser sutil. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class="socialize-in-content" style="float:right;"><div class="socialize-in-button socialize-in-button-vertical"><a href="http://twitter.com/share" class="twitter-share-button" data-url="http://www.obsessivocompulsivo.com/onibus-pessoas-e-cutucoes/" data-text="Ônibus, pessoas e cutucões&#8230;" data-count="" data-via="pailoro" ><!--Tweetter--></a></div><div class="socialize-in-button socialize-in-button-vertical"><script>
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<p>Gosto de ver os primatas, e não sei ser sutil. Olho pra direita, esquerda, direita, direita, direita, direita. Não, não estou sendo redundante, essa é a quantidade de vezes que olho para a pessoa do lado (as vezes da esquerda). Ou ela me nota por eu estar olhando-a fixamente, ou me nota pela quantidade de vezes que viro a cabeça em sua direção. Doentio? Nem me fale. Mas é isso ou deixar que o ônibus atropele a todos que estão alí. Eu não gostaria de viver com isso&#8230;</p>
<p>Chega o bendito. Respiro fundo e vou enfrentar uma quantidade ímpar de degraus (isso devia ser proibido). Só é pior quando é daquelas roletas que só tem três &#8220;braços&#8221; (só pode ser marcação comigo). Fico ainda imaginando a quantidade de seres que esfregaram seus corpos imundos naquela &#8220;bagaça&#8221;. Respiro fundo, pego naquele dinheiro podre que está em meu bolso e tomo cuidado para o cobrador não tocar os dedos dele nos meus, ou eu teria que toca-lo de volta uma quantidade par de vezes. TREK! Passei.</p>
<p>Admiro bastante ônibus livres de pessoas, com opções de assento, um bem limpo de preferência. Já devidamente colocado em meu local de temperatura normal, às vezes encosto minha cabeça e braços na cadeira da frente para descansar melhor. O problema é quando vem alguém, senta e toca em mim. Daí preciso tocar a pessoa na mesma parte em que ela me tocou, uma quantidade par de vezes (sim, sempre números pares, ímpares são maléficos). Toco duas vezes, a pessoa finge que não sentiu nada, toco de novo, ela olha pra trás, me faço de besta e &#8220;tico&#8221; nela uma quarta vez. Pronto, o mundo está a salvo novamente.</p>
<p>As vezes, pra evitar esse tipo de problema eu encosto a minha cabeça na janela lateral, mas se o ônibus passa num buraco e dou com o crânio contra o vidro, o que você acha que tenho que fazer uma quantidade par de vezes também? Ultimamente tenho tentando bastante me manter ereto no assento.</p>
<p>A segunda situação é quando vou em pé. Se estou nessa condição, é porque o ônibus está consideravelmente cheio, isso significa que existe uma maior probabilidade de eu tocar em alguém, ou vice-versa. O que gera uma necessidade maior de cautela, e um nível ainda superior de vergonha, pois a pessoa pode pensar que estou &#8220;roçando nela&#8221; e não que tenho um distúrbio psicológico comprovado. Por isso tento ir pra porta de saída e me colo nela. Sei que atrapalha mais as pessoas que querem descer, mas é isso ou sair cutucando todo mundo um número par de vezes dentro do transporte, talvez ser expulso pelo cobrador a gritos, ou mesmo ser preso pela polícia por atentado ao pudor. Minhas opções me fazem grudar a porta de saída e me espremer ainda mais contra ela quando as pessoas estão descendo.</p>
<p>As vezes penso como seria se desse pra usar uma câmera que deixasse as pessoas invisíveis e eu pudesse ser filmado em um ônibus lotado, tentando me comportar dentro daquele espaço sem ser preso.</p>
<p>Mas um dia compro um carro. Gosto deles porque tem quatro rodas e quatro assentos. Só fica faltando eu colocar uma direção extra, um cano de escape a mais e arrancar o retrovisor central. Só eu poderei sentar em meu banco, pois nada pior do que quando você não tem opções de assento em um ônibus e fica esperando alguém se levantar. Antigamente eu simplesmente não sentava em um lugar onde visse que outra pessoa havia estado. Eu imaginava que se pegasse aquele lugar iria absorver tudo de ruim que aquele ser tinha. Esse pensamento ainda me incomoda, mas junto forças e sento mesmo assim. Sinto o quentinho do corpo da outra pessoa e aquela voz nada amigável em minha cabeça fica gritando: &#8220;É agora, você terá cancer, o ônibus irá bater e o mundo vai explodir! Eu te avisei pra não sentar aí, avisei! Bhuahahahaha&#8230;!!&#8221; Vou com esse pensamento até meu destino, levanto e saio tocando nas pessoas que ficaram de pé. Me espremendo entre um corpo e outro, colocando a perna pra trás para dar um chute bem onde toquei naquela pessoa quando a transpassei. Todos me olham, todos me odeiam. Cutuveladas duplas para todos os lados. Consigo chegar ao outro lado do &#8220;funil&#8221;, desço as escadas, dou um chute no pneu e continuo meu dia.</p>
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