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Eterno Retorno

Toda vez que Friedrich Nietzsche falava sobre o eterno retorno, o que ele queria dizer, basicamente, era que na existência há um número limitado de fatos, e que geração após geração, a vida está sujeita a experimentar as mesmas coisas num ciclo o qual o caos não pode ter total controle. Mas eu me refiro a algo um tanto diferente.

Quando eu tinha seis anos de idade, algo estranho começou a acontecer comigo (e eu ainda estava longe da puberdade). Se eu saia em direção a algum lugar, ao retornar para minha casa, sentia uma incontrolável necessidade de percorrer o mesmo caminho. Mas era o mesmo caminho MESMO. Tentava inclusive, encontrar minhas pegadas para pisar no mesmo lugar. E em algum momento de minha infância, me tornei um especialista em pegadas. Na tentativa de reconhecer as minhas, eu tinha a necessidade de analisar cada uma. Com o tempo, comecei a sentir que poderia seguir o rastro de qualquer um numa floresta densa.

Isso me perturbava, pois na época eu não entendia o que ocorria comigo (obvio). Mas enquanto ia comprar pão, me preocupando em deixar boas pegadas para poder identifica-las sem problemas na volta, e poder pisar exatamente no mesmo lugar onde havia pisado na ida, eu tentava imaginar o porque que aquilo estava acontecendo comigo. Imaginei que poderia ser uma experiência de um cientista maluco, e que aquela cidade inteira havia sido criada apenas para me testar. Que Matrix que nada, com sete anos de idade eu já estava completamente convencido de que minha realidade era simulada, e que todo o planeta havia sido construído apenas para que eu pudesse ser testado para alguma coisa. Nada era real. Eu me sentia como objeto de um evento que iria definir o futuro de toda uma existência.

Então, com apenas sete anos, o peso do mundo estava em minhas costas. Mas se tudo era apenas uma simulação, por que eu precisava, afinal, cumprir essas ordens? Se a civilização em que me encontrava era virtual, por que eu sentia tanto medo de, ao me desprender daquela “missão”, destruir tudo o que havia, já que não havia nada?

O fato é que, em apenas dois anos, passei de uma criança que não conseguia levantar da cama, devido a febre reumática, ao responsável por uma galáxia “virtual”, onde todos haviam sido implantados em meu cérebro para simular um mundo que não existia, em prol de um propósito que eu desconhecia. Me sentia um robô obedecendo comandos, mas eu também era um soldado rebelde, pois sempre questionava a voz que sussurrava ordens entre minhas idéias.

Um dia saí de casa e resolvi não fazer o mesmo caminho de volta. Daí entrei em pânico no meio do caminho. Tentei voltar para minha “trilha”, mas senti que tudo já estava perdido. Eu suava e caminhava rapidamente. Meus dentes rangiam e minhas esperanças desabaram quando em um determinado momento senti que já era tarde, e que tudo estava perdido. E se aquele mundo fosse real? E se eu tivesse acabado de matar bilhões de pessoas? Parecia que a qualquer momento o planeta iria começar a desmoronar.

Quando cheguei em casa, larguei os pães em cima da mesa, corri para meu quarto e esperei o momento em que o planeta se transformaria em poeira espacial. Passei todo o restante da tarde e noite ali, me odiando e prometendo que se tivesse uma segunda chance de salvar a humanidade, não iria desperdiça-la. Quando percebi que nada ia acontecer, agradeci a voz que falava em minha cabeça, e pelos próximos anos, nunca fiz um caminho diferente que pudesse colocar o planeta em perigo, sendo ele virtual ou não.

Essa foi minha primeira obsessão, e o início de uma luta diária para evitar que todo o planeta fosse destruído, ou apenas que alguns milhões de pessoas perecessem. Desde aquele dia, tudo o que pudesse acontecer seria culpa minha, e só minha.

4 Responses to Eterno Retorno

  1. Muito bom o texto!

    Um distúrbio que faz com que vc tenha a
    obrigação de salvar a humanidade… Tem castigo pior? Bem que poderia ser o contrário.
    Acho que Jesus Cristo tinha TOC.

    Valeu, man.

  2. Quanto a caminhos, eu já sou o oposto: procuro nunca voltar pelo mesmo caminho. Mesmo que tenha que andar um pouco mais (na ida ou na volta).

  3. ja tive essa teoria na minha mente chegue ate perguntar para o meu pai o que ele faria se descobrisse que por exemplo um pais nao existisse como por exemplo o japao. Ate hoje penso que pode ser verdade que tudo pode ser inventado que nada e real como no filme matrix e uma loucura pois ate voces nao existiriam entao estaria falando com quem ?robos virtuais ?e uma loucura,mas sei que e so coisa da nossa mente mas antes nao sabia e achava que tava doido tenho tambem outras teorias mas depois se alguem se enteressar eu conto.

  4. interessante! Vejo pelo título de seus posts que vc anda lendo bastante Nietzche ultimamente, rs.

    Achei bastante interessante sua metáfora das pegadas. Comigo aconteceu algo similar com relação a Deus e à religião. Mas, no fundo, o que me ajudou mesmo a caminhar com minhas próprias pernas foi a dolorosa constatação, de que (ao contrário do que você concluiu no seu texto) o mundo não gira em torno de mim. Particularmente, foi a coisa mais difícil para mim, reconhecer minha a insignificância.

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