eu eu mesmo o outro

Eu, eu mesmo, e o outro…

Me pego questionando se será mais difícil aceitar aquilo que se é, ou transformar-se em algo que nunca foi. Todos precisam que você mude para adaptar-se ao que os outros são, e esta metamorfose é necessária para manter-se aceitável. O problema é que nenhum é um só, existem três para cada um de nós.

Eu

“Esse” é aquilo que todos esperam e querem ver. O “Eu”, ou aquilo que preciso que você pense que sou. Não posso ser você nem outro, mas aquilo que as pessoas precisam ou esperam que eu seja. O “Eu” é quem todos conhecem, aquele que alguns amam e que muitos odeiam. Alguns adoram “Eu” pois é aquilo de que precisam, outros odeiam “Eu” pois ele é aquilo que precisaram ou não puderam ser. Esse é “Eu”, e com certeza você. Mas “Eu” sou mais, ele precisa ser mais, precisa manter-se e agradar, pois na selva ou na guerra, “Eu” é o provedor de todos os outros. “Eu” é aquele que você não quer, mas que precisa ser para todos. Um soldado da linha de frente, quase a prova de balas. E que sorriso… Todos amam “Eu”, todos querem e precisam ser “Eu”, e este precisa fingir que não conhece mais ninguém. E se Ele, o “Eu”, encontrar com os “outros” em qualquer situação, deve olhar para o lado e fingir que nunca os viu. Precisa preservar sua natureza. “Eu” não pode deixar de ser, ou seremos “todos” pegos, e a pena por não “ser” pode ser cruel, então seja sem temor, e desvie das balas como uma bailarina.

Eu Mesmo

“Eu mesmo” esconde-se sempre nos becos mais escuros, sempre com vontade de aparecer. “Eu mesmo” é uma espécie de ator que nunca consegue o papel principal. “Eu mesmo” quer ser, mas ninguém o aprecia, fica sempre pelos cantos esperando uma deixa. Enquanto alguns gostam de “Eu” todos detestam “Eu mesmo”, ele é cruel, arrogante e não merece atenção – é o que todos pensam. Qual é aquele que não prefere fingir que não existe “Eu mesmo”? Ele é detestável e presunçoso, mas melhor assim… Imagine se “Eu mesmo” pudesse sair por aí livremente? Que bagunça! Ninguém quer conversa com ele. Prendam-no em uma gaiola se for possível! Reprimam, espremam, condenem “Eu mesmo”! Não quero vê-lo por aí sendo um perigo para todo “Eu” que transita. E qualquer um que permita-o passear pelo zoológico merece total punição. É preciso maior ausência de consciência. Não o deixemos “ser”, senão onde esse mundo vai parar?

Uma coisa aprendi em todo esse tempo de vida: “Eu mesmo” é louco, e merece ser marginalizado, sim! Como pode alguém se deixar enlouquecer com tanta coisa boa na vida como carros semi-novos, shows de patinação e desfiles de sete de setembro? “Eu mesmo” é condenável, e nenhum de nós precisa dele. Joguem-no no calabouço se for preciso, não queremos vê-lo nunca mais…

O Outro

Esse só ouvi falar, mas um amigo meu tomou café com ele uma vez, e me disse que ele só quer “ser”. Odeia “Eu” e “Eu mesmo”, não vê a menor graça em nenhum dos dois, prefere outra coisa, algo mais interessante e que o complete, mas “O outro” não consegue encontrar. Ele observa, analisa, sintetiza, cria abstrações, mas não consegue chegar ao ponto de ser ele mesmo. Já tentou de tudo, mas nunca desistiu de sua jornada. “O outro” quer ir além e largar tudo que os outros desejam, afinal ele não é um fanfarrão, não quer pensar em si mesmo como algo que quer, mas como algo que poderia.

Uns dizem que ele nunca vai conseguir, outros falam que ele não para de tentar. Uma coisa é certa, “O outro” tem o mais destruidor de todos os sentimentos, a esperança. E parece este ser o único sentimento que consegue ter. Ele não é, nem foi, mas pensa que será, no dia que encontrar algo que talvez nem exista. Nenhum dos outros querem ser ele, mas é o único que realmente tenta ser algo a mais. “O outro” é um sonhador, quem lhe dera ter asas…

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