Fazendo compras
OBS: Esse post não faz sentido algum para quem não tem TOC.
Faltar coisas em casa é algo complicado. Antes isso afetasse apenas a mim, mas sinto que se eu deixar faltar algo aqui, isso poderá provocar fome em todo o planeta. Então, saio correndo pro supermercado. Sair de casa já é chato em sí, pois deixarei pendente rotinas que poderão livrar a humanidade de catástrofes. Mas preciso arriscar, afinal, o mundo não pode passar fome. Então lá vou eu!
Chegando ao supermercado, é hora de analisar a quantidade de coisas que vou levar. Se forem muitas, preciso pegar um carrinho, mas antes, é preciso quase que fazer uma revisão nele, observar bem, analisar a conjuntura das rodas Oo. Vamos lá: Ele não pode travar nenhuma roda; não pode pender para um lado; não pode ter nada grudado e balançando, como um saco plástico, ou o pedaço de um. É preciso verificar todo o local onde se põe a mão, afinal, uma guia suja pode significar um infeção mundial, e não quero ser o responsável por isto. Para escolher o carrinho de compras ideal é preciso muita cautela. Mas se forem poucas compras, é preciso uma cesta. Também é preciso cuidado para escolher uma destas. Não pode estar suja, óbvio. Preciso prestar atenção nas alças, pois uma vez uma delas estava ao contrário, um absurdo! Eu escolher uma cesta de compras errada, pode significar o impacto de um cometa com mais de 40 Km de diâmetro contra a Terra! E também não quero ser o responsável por isto, então é preciso ter cautela nesse momento.
Escolhido o coletor ideal de produtos, vamos às compras. Não se pode pegar qualquer coisa da prateleira, é preciso verificar cada produto. Se não está “machucado”, etc. Também não pode ser o primeiro da prateleira, pois este também pode conter possíveis infecções que podem se alastrar mundialmente. Também é preciso percorrer os corredores do supermercado de forma sistemática. Mas entenda: “de forma sistemática pra você”. não necessariamente é o mesmo pra mim. Existe um padrão dinâmico que é definido pelo momento da compra e pelos desastres que devo evitar naquele dia.
Existem determinados produtos que não se pode levar num determinado dia, pois pode significar um desequilíbrio dentro do “equilíbrio” de cuidados que tenho que ter para evitar uma série de catástrofes. Pessoas não podem ficar no meu caminho, atrasando minha passagem, isto também pode fazer com que eu seja o responsável por atrasar a rotação do planeta em torno do Sol, e fazer com que o ano dure mais do que 365 dias. Imagine um ano bissexto com 2 meses a mais? seria uma loucura social! O jeito é ser grosseiro na passagem, mas cauteloso, pois uma batida num determinado ângulo de outro carrinho também pode significar um desastre de trânsito na avenida em frente ao supermercado. Cautela, cautela sempre!!
Produtos cuidadosamente escolhidos, hora de ir para a fila. É preciso cuidado aqui para não tocar em outras pessoas na fila, pois isto pode gerar um magnetismo que poderá mudar os pólos do planeta. E se isso acontecer, a única forma de reverter, é tocar naquela pessoa novamente, exatamente no mesmo local, quatro ou oito vezes, por mais que ela me olhe de cara feia, afinal, ninguém vai querer trocar o polo sul pelo norte.
No caixa, muito cuidado para ele não encostar em mim, isso seria muito pior que uma explosão nuclear, já pensou a quantidade de mortes? Nem pensar!
Compras pagas, hora de ir pra casa, com muito cuidado no caminho para uma sacola não cair no chão, isso significaria extinção total de todas as espécies no planeta!! Muito cuidado também com as linhas no chão, nada de terremotos antes de chegar em casa!
Em minha residência, já posso pôr tudo na mesa da cozinha e voltar a tomar conta de coisas mais importantes do que os desastres no meio do caminho, afinal, o planeta está a salvo, mas alguém ainda precisa tomar conta do universo.

Bem, não faço isso tudo quando vou às compras, mas confesso que compreendo perfeitamente tudo o que disseste! Sim, também tenho um pouco de “não me toques” (uma vez, um amigo meu sentou-se demasiado perto de mim, e eu não me podia afastar mais porque a parede impedia-me de o fazer…suei frio…) embora não sinta necessidade de tocar nas pessoas novamente para anular os efeitos nocivos que isso poderia trazer xD
Já fui mais obcecada… no entanto não resisto em, na passadeira da caixa, meter os produtos todos muito organizadinhos e encaixadinhos uns nos outros, e na hora de os arrumar nos sacos, vai tudo por ordem: num saco os enlatados, noutro os congelados, noutro as massas, batatas e arroz, noutro os doces, bolos e chocolates…
Quanto ao carrinho, também já tive mais pancada, não podia estar sujo nem ter sacos ou cartões dentro… mas não dá, minha vida é demasiado complicada só por si, mais complicações não pode!…
Mas às vezes confesso que me excedo… não posso pisar os riscos azuis na rua, verifico umas 2 ou 3 vezes (consoante o grau de ansiedade no momento) se fechei o carro… de volta e meia lembro-me do telemóvel!! Ai o telemóvel!!! Ah…está na mala…como está sempre…está mesmo, era mesmo o telemóvel que eu vi?…
E quando vou às compras, sigo exactamente o mesmo percurso e compro as coisas exactamente pela mesma ordem… às vezes excedo a regra…
Antes de saber que tinha um bocadinho de TOC, também vivia um pouco atordoada, a pensar que devia ser maluca ou então era realmente uma daquelas pessoas muito excêntricas que de vez em quando aparecem por aí. Paranóia com a roupa! Não, não posso usar esta peça com aquela, não, não pode ser esta cor com a outra, não fica bem, pareço gorda, pareço magra, pareço parva, pareço mal vestida, nota-se aquele pormenorzinho ali, nao nao, não sei o que vestir, porcaria de roupa que nada me fica bem!!! (paranóias, na realidade, toda a roupa me deve ficar bem, uma vez que tenho o corpo bem feito, não fosse uma anca mais larga que outra ou um peito um pouco mais cheio que outro, salta à vista a assimetria, mas que aos olhos dos outros deve ser uma coisa normal e que não se nota nada).
Depois eram pensamentos esquisitos e repentinos do tipo… estar com o guarda-chuva na mão, e de repente imaginar-me a dar com ele no vidro da janela e a partir o vidro todo!…e ficava eu a olhar para o vidro… e tinha que me ir embora com medo que realmente eu fosse dar com o guarda-chuva no vidro!
Fazer as coisas repetidas vezes, e verificar verificar verificar e verificar até me fartar. Dizer palavras em voz alta tipo “banana” e repetir a palavra até ela se tornar irreconhecível!
Comer as unhas era outra, as unhas simplesmente não podiam estar crescidas! “Oh, um branco da unha já está a crescer, não pode!!” e toca de ratar as unhas até ver se elas ficavam lisas, só parava quando me doia… mesmo assim lá ia limar o que não ratei, com os dentes… e quando era criança mastigava o cabelo porque sim, tinha necessidade disso!
Até que um amigo me disse: mulher, tu sofres mas é de ansiedade contida! E fui à net, escrevi trastorno de ansiedade no google e encontrei o tal TOC. E fiquei muito feliz de saber que afinal o que eu tinha era explicável. Aí comecei a melhorar das minhas paranóias, porque sabia o que estava a acontecer comigo.
E entretanto tenho vindo a melhorar bastante dessa pancada porque a minha vida começou a ser muito atarefada,e definitivamente não posso perder tempo com um monte de coisinhas.
Passei a ser mais simples, menos complicada com a roupa, menos complicada com o sítio onde guardo as coisas, menos complicada com o que guardo e o que vai fora (embora ainda tenha um pouco do síndrome do colecionador), com a disposição dos objectos, bem como com a verificação de uma série de coisas… é verdade, às vezes sinto-me insegura, mas ponho a minha razão a trabalhar: “Márcia, tu viste que o vídeo estava a gravar a novela, TU VISTE E VERIFICASTE UMA VEZ, por isso vai-te embora em paz!”…e faço força e vou embora de casa descansada (durante os primeiros 5 minutos ainda fico atormentada).
Mas não resisto ainda a certas coisas do tipo… tenho que subir 10 degraus da escada antes que a porta do prédio se feche!! E lá vou eu a correr patamar adentro a pular os degraus de 4 em 4 para ultrapassar os 10, antes que a porta do prédio se feche, porque senão não vou conseguir fazer seja-lá-o-que-raios-for, hahaha!
Enfim, não te maço mais com tanto texto…
Não tenho muito de TOC, mas às vezes atrapalha, porque volta e meia sou assaltada por dúvidas. O que me faz lenta na aprendizagem… além de ter de checar tudo o que aprendi para ver se realmente o conhecimento ficou lá mesmo. Ainda hoje é uma coisa um pouco assustadora ter executar tarefas, porque tendo a que vá tudo ao mais ínfimo pormenor, e tem que estar tudo bem, porque se não estiver… se não estiver, não sei, mas tem que estar! Resultado, acabo por desistir porque: ou faço bem, ou o melhor é largar!… e para não andar por aí a desistir das coisas, o melhor é deixar-me de pancadas e fazer o melhor que posso, sem exigir a graus ultra severos de mim própria…tem resultado, os meus trabalhos são bem recebidos pelos profs, às vezes até ficam impressionados com o grau de meticulosidade! Se já sou perfeccionista por “natureza”, não deixo que o TOC me faça ultra-mega-supra-perfeccionista, ou então a coisa dá para o torto!
Desculpa o monólogo… é que ainda não me tinha deparado com alguém que tivesse TOC e que o expusesse como tu… não gosto de chama-lo de doença, parece muito pesado… é uma “pancada”, só isso! E acho que pode ser controlado, se fizermos uso do nosso lado racional e o deixarmos sobrepor-se aos “filmes”!
Fica bem ^-^
Tive a reler o texto e encontrei um monte de erros na escrita… foi de escrever à pressa…