Gosto quando a parada de ônibus tem um número par de pessoas. Gosto principalmente quando não são muitas, porque não gosto de pessoas, mas gosto de observa-las quando estão em pequeno número. É um bom passatempo enquanto aguardo, mas aí é onde começam meus problemas…
Gosto de ver os primatas, e não sei ser sutil. Olho pra direita, esquerda, direita, direita, direita, direita. Não, não estou sendo redundante, essa é a quantidade de vezes que olho para a pessoa do lado (as vezes da esquerda). Ou ela me nota por eu estar olhando-a fixamente, ou me nota pela quantidade de vezes que viro a cabeça em sua direção. Doentio? Nem me fale. Mas é isso ou deixar que o ônibus atropele a todos que estão alí. Eu não gostaria de viver com isso…
Chega o bendito. Respiro fundo e vou enfrentar uma quantidade ímpar de degraus (isso devia ser proibido). Só é pior quando é daquelas roletas que só tem três “braços” (só pode ser marcação comigo). Fico ainda imaginando a quantidade de seres que esfregaram seus corpos imundos naquela “bagaça”. Respiro fundo, pego naquele dinheiro podre que está em meu bolso e tomo cuidado para o cobrador não tocar os dedos dele nos meus, ou eu teria que toca-lo de volta uma quantidade par de vezes. TREK! Passei.
Admiro bastante ônibus livres de pessoas, com opções de assento, um bem limpo de preferência. Já devidamente colocado em meu local de temperatura normal, às vezes encosto minha cabeça e braços na cadeira da frente para descansar melhor. O problema é quando vem alguém, senta e toca em mim. Daí preciso tocar a pessoa na mesma parte em que ela me tocou, uma quantidade par de vezes (sim, sempre números pares, ímpares são maléficos). Toco duas vezes, a pessoa finge que não sentiu nada, toco de novo, ela olha pra trás, me faço de besta e “tico” nela uma quarta vez. Pronto, o mundo está a salvo novamente.
As vezes, pra evitar esse tipo de problema eu encosto a minha cabeça na janela lateral, mas se o ônibus passa num buraco e dou com o crânio contra o vidro, o que você acha que tenho que fazer uma quantidade par de vezes também? Ultimamente tenho tentando bastante me manter ereto no assento.
A segunda situação é quando vou em pé. Se estou nessa condição, é porque o ônibus está consideravelmente cheio, isso significa que existe uma maior probabilidade de eu tocar em alguém, ou vice-versa. O que gera uma necessidade maior de cautela, e um nível ainda superior de vergonha, pois a pessoa pode pensar que estou “roçando nela” e não que tenho um distúrbio psicológico comprovado. Por isso tento ir pra porta de saída e me colo nela. Sei que atrapalha mais as pessoas que querem descer, mas é isso ou sair cutucando todo mundo um número par de vezes dentro do transporte, talvez ser expulso pelo cobrador a gritos, ou mesmo ser preso pela polícia por atentado ao pudor. Minhas opções me fazem grudar a porta de saída e me espremer ainda mais contra ela quando as pessoas estão descendo.
As vezes penso como seria se desse pra usar uma câmera que deixasse as pessoas invisíveis e eu pudesse ser filmado em um ônibus lotado, tentando me comportar dentro daquele espaço sem ser preso.
Mas um dia compro um carro. Gosto deles porque tem quatro rodas e quatro assentos. Só fica faltando eu colocar uma direção extra, um cano de escape a mais e arrancar o retrovisor central. Só eu poderei sentar em meu banco, pois nada pior do que quando você não tem opções de assento em um ônibus e fica esperando alguém se levantar. Antigamente eu simplesmente não sentava em um lugar onde visse que outra pessoa havia estado. Eu imaginava que se pegasse aquele lugar iria absorver tudo de ruim que aquele ser tinha. Esse pensamento ainda me incomoda, mas junto forças e sento mesmo assim. Sinto o quentinho do corpo da outra pessoa e aquela voz nada amigável em minha cabeça fica gritando: “É agora, você terá cancer, o ônibus irá bater e o mundo vai explodir! Eu te avisei pra não sentar aí, avisei! Bhuahahahaha…!!” Vou com esse pensamento até meu destino, levanto e saio tocando nas pessoas que ficaram de pé. Me espremendo entre um corpo e outro, colocando a perna pra trás para dar um chute bem onde toquei naquela pessoa quando a transpassei. Todos me olham, todos me odeiam. Cutuveladas duplas para todos os lados. Consigo chegar ao outro lado do “funil”, desço as escadas, dou um chute no pneu e continuo meu dia.


Eu não tinha mania de tocar nas pessoas, deve ser terrível, mas tinha mania de tocar nas coisas. As vezes levantava do banco do ônibus e tinha um pensamento ruim então eu tinha que sentar e levantar novamente. Se nesse tempo alguém ameaçava sentar lá eu corria e sentava na frente e levantava correndo torçendo para não ter nenhum pensamento ruim senão ia ficar batendo a bunda no banco enquanto a pessoa, esperando para sentar, ficava olhando o bate-bunda horrorizada. Quando atravessava o corredor no ônibus evitava me segurar em algo senão podia ter um pensamento ruim na hora e teria que voltar, na contra-mão, atrapalhando e empurrando todo mundo, para tocar novamente onde havia me segurado. É, quem acha que andar de onibus não é aventura é pq não tem TOC.
SIMPLESMENTE MARAVILHOSO SEU SITE/BLOG! VOCÊ EXPRESSA-SE COM UMA CLAREZA INVEJÁVEL, DIGNA DE UM ESCRITOR PROFISSIONAL…JÁ PENSOU NISSO? BEIJOS
Fernando Aureliano Reply:
junho 23rd, 2010 at 8:53 am
Olá @ROSENARA. Obrigado pelas suas palavras. Quem sabe com o passar dos anos eu não transforme esse blog em um livro? De qualquer forma, mais uma vez, muito obrigado pelo carinho, ele me estimula a continuar com o trabalho.
Acho que vc ja me ticou mais de uma vez quando agente trabalhava junto. Mais como vc fazia tantas coisas loucas que passava despercebido essas coisas.. Vc devia pensar nessa ideia do livro, ia ser bem interessante.
COMO CALAR ESTA MALDITA VOZINHA DENTRO DE NOS??? OLHA EU PAGARIA MUITO BEM! CONTINUE ESCREVENDO, SEUS TEXTOS SAO MARAVILHOSOS, ME IDENTIFICO TOTALMENTE COM ELES, VC ESTA AJUDANDO A MUITOS!
Fernando Reply:
agosto 18th, 2010 at 1:44 pm
Olá @Toc master Brazil. Obrigado pelas palavras. Pretendo continuar sim, tenho muitas coisas ainda sobre o que falar, só não escrevo mais por falta de tempo, mas tento postar no máximo a cada 2 semanas. Os comentários me incentivam a continuar escrevendo, então, obrigado mesmo!