horizonte

A Ilusão do Horizonte

Ainda que eu pudesse, mesmo assim não deveria.
Porque acreditar que algo pode ser dito, é tão ingênuo quanto nossa vontade.
Ainda que eu devesse, eu não deveria me arriscar.
Porque arriscar-se é tão ineficaz quanto tentar ser.

Então eu não sou, e não devo.
Porque tudo aquilo que eu pudesse, depende do que você acredita que eu deveria.
Ser, é apenas uma grande perda de tempo,
Talvez até maior que acreditar

Tendo isto, talvez a única coisa que eu possa, seja a ausência,
Porque ausência é aquilo que se pode ter verdadeiramente.
Então a verdade é que devo não estar, para talvez ter algum ser que realmente se possa tocar.
Como se pudéssemos tocar aquilo que só a gente tem.

Penso nas coisas que eu deveria fazer,
Como se o dever fosse algo meu.
Na verdade, o dever é sempre terceirizado.
Afinal, a vontade é outra coisa que não se pode tocar.

Só o que me resta é desejar que o horizonte me fosse mais distante.
Como se ele pudesse,
Como se isso importasse
O horizonte é só mais uma coisa que apenas podemos ver.

Fernando Aureliano

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A Sinfonia da Loucura ou Um Convite a Insanidade

De repente, a busca fracional pela sanidade não faz o menor sentido. É uma época em que meus demônios se tornam os melhores amigos. Por mais que possam sussurrar mentiras em meus ouvidos, será para meu “benefício”, e tudo o que eles querem em troca é minha lucidez, e no mundo em que vivemos, esse é um preço muito baixo a se pagar. Eu, que sempre mantive meus demônios presos, agora resolvo entrar na jaula, e será uma luta de vida ou morte. Chega uma hora em que a vitoria não importa, apenas a delicadeza e emoção da batalha. Quando encaro meus demônios, não interessa mais quem vai ganhar, mas da um certo prazer saber que estamos juntos novamente. Eles que me conhecem melhor que ninguém, além de que, talvez melhor do que a batalha possa ser, já foi delicioso os aplausos ao abrir a cela.

E do lado de dentro, posso ver que existe muita poesia na loucura, que ela não é uma obra concreta. Uma das coisas mais interessantes, é que é possível ainda sentir o cheiro e tatear a insanidade, mas sempre com muito cuidado ao segurar sua mão, pois ela pode te guiar a algum lugar. Com um vestido branco e olhos verdes, a loucura chega a dar água na boca, é abusada e sedutora, e tudo que quero fazer é abraça-la.

Depois de lhe dar um beijo e passearmos pelo meu vazio, posso notar as coisas diferentes, distorcidas. Está tudo deformado, mas de certa forma, mais bonito. Depois de uma tarde sozinhos, tenho a certeza de que realmente a encontrei, e percebo que é correto a insanidade ser uma figura feminina, que apesar de ter o mesmo nome para todos, é diferente e especial para cada um de nós.

E toda vez que aceito, abraço e luto com meus demônios, tudo fica mais interessante, e o que está do lado de fora não parece mais importar. A razão é uma companhia muito polida e parcial, nem sequer visa te beneficiar de alguma forma. A razão é mesmo uma mulher gorda de 68 anos de idade, que mal posso ouvir sua voz. A garganta está gasta de tanto falar, tentando me convencer a não ir embora, enquanto tudo o que eu queria era partir. A cada dia que passa, a razão ficava menos atraente e interessante, e aquilo não fazia sentido.

Decido então que é gostoso enlouquecer, pelo menos até o ponto em que é possível se manter de pé. Pela primeira vez quero experimentar o sabor da insanidade, que parece ser tão suculenta… Quero conhecer bem essa moça de olhos verdes que sempre me convida a ir para o outro lado do portão, dentro da cela onde estão todos os meus demônios, essa intimidade pode ser muito poderosa.

Então, agora que sou o convidado de honra da minha loucura, quero aproveitar cada momento até que a festa acabe. Quero lutar com todos. Sinto o próprio planeta como um gigante Coliseu, em que todos estão nos esperando pra entrar nessa luta, em benefício de todos aqueles que não conhecem essa mulher tão bonita, e de olhar tão sedutor. Mas agora chegou minha vez. Sinto o rosnar de todos os demônios. Viro a chave e dou o primeiro passo. Abraço a todos, e eles me agradecem por finalmente ter aceitado o convite. Existe muita alegria na insensatez…