Tag Archive - TOC

Eterno Retorno

12 julho 2010 by Fernando Aureliano, 1 Comment
Eterno Retorno

Toda vez que Friedrich Nietzsche falava sobre o eterno retorno, o que ele queria dizer, basicamente, era que na existência há um número limitado de fatos, e que geração após geração, a vida está sujeita a experimentar as mesmas coisas num ciclo o qual o caos não pode ter total controle. Mas eu me refiro a algo um tanto diferente.

Quando eu tinha seis anos de idade, algo estranho começou a acontecer comigo (e eu ainda estava longe da puberdade). Se eu saia em direção a algum lugar, ao retornar para minha casa, sentia uma incontrolável necessidade de percorrer o mesmo caminho. Mas era o mesmo caminho MESMO. Tentava inclusive, encontrar minhas pegadas para pisar no mesmo lugar. E em algum momento de minha infância, me tornei um especialista em pegadas. Na tentativa de reconhecer as minhas, eu tinha a necessidade de analisar cada uma. Com o tempo, comecei a sentir que poderia seguir o rastro de qualquer um numa floresta densa. [...]

Ônibus, pessoas e cutucões…

18 junho 2010 by Fernando Aureliano, 4 Comments
Ônibus, pessoas e cutucões…

Gosto quando a parada de ônibus tem um número par de pessoas. Gosto principalmente quando não são muitas, porque não gosto de pessoas, mas gosto de observa-las quando estão em pequeno número. É um bom passatempo enquanto aguardo, mas aí é onde começam meus problemas… [...]

Fazendo compras

13 dezembro 2009 by Fernando Aureliano, 3 Comments
Fazendo compras

OBS: Esse post não faz sentido algum para quem não tem TOC.

Faltar coisas em casa é algo complicado. Antes isso afetasse apenas a mim, mas sinto que se eu deixar faltar algo aqui, isso poderá provocar fome em todo o planeta. Então, saio correndo pro supermercado. Sair de casa já é chato em sí, pois deixarei pendente rotinas que poderão livrar a humanidade de catástrofes. Mas preciso arriscar, afinal, o mundo não pode passar fome. Então lá vou eu!

Chegando ao supermercado, é hora de analisar a quantidade de coisas que vou levar. Se forem muitas, preciso pegar um carrinho, mas antes, é preciso quase que fazer uma revisão nele, observar bem, analisar a conjuntura das rodas Oo. Vamos lá: Ele não pode travar nenhuma roda; não pode pender para um lado; não pode ter nada grudado e balançando, como um saco plástico, ou o pedaço de um. É preciso verificar todo o local onde se põe a mão, afinal, uma guia suja pode significar um infeção mundial, e não quero ser o responsável por isto. Para escolher o carrinho de compras ideal é preciso muita cautela. Mas se forem poucas compras, é preciso uma cesta. Também é preciso cuidado para escolher uma destas. Não pode estar suja, óbvio. Preciso prestar atenção nas alças, pois uma vez uma delas estava ao contrário, um absurdo! Eu escolher uma cesta de compras errada, pode significar o impacto de um cometa com mais de 40 Km de diâmetro contra a Terra! E também não quero ser o responsável por isto, então é preciso ter cautela nesse momento. [...]

Antes e depois de um certo dia

29 outubro 2009 by Fernando Aureliano, 13 Comments
Antes e depois de um certo dia

Em algum dia da semana, em uma determinada época de minha infância, eu comecei a ficar inclinado a ter algumas atitudes que, para mim, e para quem estivesse de fora visse, pareciam bem estranhas. De repente, senti que minhas unhas não poderiam ter nenhuma falha. Eu tinha cerca de 8 anos de idade, não tinha a menor vaidade sobre nada. Tanto que o importante não era ter as unhas bonitas, apenas que elas não deveriam ter sulcos ou pontas que prendessem no cobertor, por exemplo. Isso é até um tanto quanto natural, até eu começar a ficar completamente obcecado por isto. Não podia perder tempo procurando um cortador de unhas, sejam as dos pés ou das mãos, se não estivessem como deveriam, aquilo precisava ser resolvido imediatamente. Comecei a arranca-las a mordidas. Mordia minhas unhas até elas sangrarem, e mesmo assim, se ainda não estivessem “perfeitas”, eu continuava, com o gosto do sangue em minha boca. Mal sabia eu que este era o início de um problema com o qual eu teria que conviver durante toda a minha vida. [...]

Razão e Violência

20 setembro 2009 by Fernando Aureliano, 18 Comments
Razão e Violência

Em primeiro lugar, eu gostaria de dizer que o TOC não é Psicose. Este é um termo psiquiátrico genérico que se refere a um estado mental no qual existe uma “perda de contacto com a realidade”. Ao experienciar um episódio psicótico, um indivíduo pode ter alucinações ou delírios, assim como mudanças de personalidade e pensamento desorganizado. Tal é frequentemente acompanhado por uma falta de “crítica” ou de “insight” que se traduz numa incapacidade de reconhecer o carácter estranho ou bizarro do seu comportamento. As obsessões e transtornos das pessoas que têem o TOC, nos perturbam justamente porque nós estamos em contato direto com a razão. Caso contrário não nos preocuparíamos com nossos rituais. [...]

Eu e nossas obsessões

14 agosto 2009 by Fernando Aureliano, 3 Comments
Eu e nossas obsessões

Essa semana recebi  um email muito legal da Ana, de Portugal, procurando tirar algumas dúvidas. O email ficou grande e acabei falando sobre coisas realmente muito interessantes que acho que seria legal passar pra vocês. Então vamos lá!

Minhas obsessões iniciaram-se quando eu era bem jovem, cerca de 7 anos. Comecei a ir a lugares e estranhamente ter uma vontade incontrolável de refazer o mesmo caminho na volta. Nenhum desses desejos sumiu rapida ou completamente. Na verdade, eles foram se acumulando a medida em que o tempo passava. Durante toda a minha infância, eu também criei um medo absurdo do escuro, a ponto de só conseguir dormir com a luz acesa, daí a minha irmã mais velha me esperava dormir para apagar a luz para mim. Em seguida comecei a ter uma estranha obsessão pelas minhas unhas. Sabe quando você tem uma imperfeição na unha e a passa por um tecido, daí você sente o tecido predendo um pouco nessas imperfeições? Para evitar esse problema, eu comecei a arrancar todas as minhas unhas com os dentes, mesmo as dos pés, e as passava em algo feito com algodão para ter a certeza de que elas não prendiam mais em nada. Em seguida comecei com a minha obsessão mais forte, que é a de repetição e a de tocar em um lugar especifico. As vezes quando toco em algo ou alguém sem querer, eu sinto que tenho que conseguir tocar exatamente naquele mesmo lugar novamente, independente de quantas vezes eu precise tentar, e só posso parar quando consigo tocar naquele mesmo lugar. O problema é que, por exemplo, as vezes eu piso em uma pedrinha no chão, então eu fico tentando tocar na mesma pedra com o mesmo lugar do pé em que a toquei, e isso pode realmente durar muitos e muitos minutos. Outras vezes estou no ônibus e toco em alguém, é uma vergonha, porque fico tocando na pessoa de novo e de novo até conseguir acertar aquele lugar novamente, e isso é realmente um grande problema para mim. Penso que se eu não fizer isto, algo de muito ruim pode acontecer, como um predio desabar, aviões caírem ou até mesmo países simplesmente explodirem. [...]

O que é o TOC?

20 maio 2009 by Fernando Aureliano, 13 Comments
O que é o TOC?

Ainda hoje a ciência moderna não conseguiu explicar a natureza deste distúrbio, mas já se sabe muitas coisas importantes sobre essa doença que transforma as pessoas em reféns de sua própria consciência.

A medida que a ciência avança em suas pesquisas, fica cada vez mais evidente os fatores biológicos que cooperam para o desenvolvimento desta doença. É muito comum o “Transtorno Obsessivo Compulsivo” (TOC) ocorrer após traumatismos, lesões ou infecções cerebrais. Sabe-se ainda que algumas zonas cerebrais se tornam hiperativas, ou seja, funcionam mais nos portadores dessa doença do que em pessoas normais, como por exemplo o lobo frontal do cérebro, na região periorbital, e também regiões mais profundas como os gânglios ou núcleos da base. É comum que grandes gênios, artistas e pessoas muito precoces tenham este tipo de distúrbio, justamente devido a esta hiperatividade cerebral causada pela doença. A hiperatividade tende a se normalizar com o tratamento farmacológico bem como com a terapia cognitivo-comportamental. [...]

A cura

20 abril 2009 by Fernando Aureliano, 14 Comments
A cura

Eu não vou expor meu cérebro a radiação nem abrir ele pra tirar um pedaço feito uma lobotomia. Prefiro ficar acendendo e desligando a luz 8 vezes toda vez que saio de casa a noite, ou olhar para a pessoa ao lado 4 vezes seguidas. Muito mais seguro. Eu já aprendi a conviver com isso mesmo. Como diria Guimarães Rosa em Grande sertão: Veredas, “viver é muito perigoso”. Mas esse tipo de tratamento pode aumentar exponencialmente estes riscos. Claro que existem muitos graus do TOC, e acredite em mim, passei por muitos deles. [...]

Eu, o “TOC” e meu cão

10 março 2009 by Fernando Aureliano, 1 Comment
Eu, o “TOC” e meu cão

Para quem sofre de “TOC”, a relação com um cachorro pode ser saudável de várias maneiras. Vou explicar.

Em toda a história da humanidade, a coisa mais poderosa que já existiu, aquilo que ergueu e derrubou reinados, que inspirou homens a fazer coisas grandiosas sempre foi a “buceta”, sim, a “buceta”, ela mesma, o mesmo vale para as mulheres também, que têm seu equivalente no homem. O que quero dizer é: O sentimento de ter alguém do seu lado, que lhe completa, que lhe ajuda, faz as pessoas superarem muitas coisas, a “buceta” fez muitas coisas na nossa história, mas o tipo de amor que pode ajudar uma pessoa com “TOC” é diferente.

Ter alguém que caga, come, bebe, dorme e faz uma série de outras coisas, muitas delas nojentas, normalmente nos faria expulsar esse ser de nossa casa para mante-la organizada de forma que só alguém com “TOC” sabe deixar.  No entanto, quando vc tem um tipo de relacionamento puro e incondicional como só um cachorro pode oferecer – e um cachorro é um ser que depende completamente de nós – você começa a se esforçar um pouco mais para poder cuidar dessa relação. É algo tão verdadeiro que a gente não percebe que esta fazendo coisas que antes nossos rituais jamais permitiriam, e quando percebe, acaba fazendo mesmo assim porque sabemos sabe que aquele animal precisa de nós, acredita e confia em nós cegamente.

Já está mais que comprovado de diversas formas possíveis que pessoas com cães tem uma qualidade de vida muito melhor, diminuindo até a incidência de enfarto e outros problemas de saúde. Apesar de que cuidar de um animal requer muita dedicação, empenho e consciência por parte de quem o cria. O relacionamento homem e cão é a chave para ajudar a superar diversos problemas das pessoas com o “TOC”.

Claro que o tipo e a força do sentimento que se nutri pelo animal é algo muito pessoal e depende muito de cada um, não adianta comprar ou adotar um cachorro se você não gosta, só por alguns dos motivos que falei acima, é preciso realmente querer e amar o animal para que se possa ter esse resultado que é mais uma consequência do que um propósito.

Com um cão nós pegamos em coisas viscosas; nos arriscamos a pisar em uma linha no chão, pondo em risco a segurança de um planeta para poder chegar a tempo de evitar que nosso melhor amigo se machuque (sim, muitas pessoas com “TOC” acreditam que o simples fato de pisar em uma fissura no chão pode fazer com que um planeta seja destruído). Para uma pessoa com nosso tipo de problema, ter um cão é uma espécie de superação. Talvez não a solução para nossos problemas, mas é um belo motivo para começarmos a enfrentar muitos deles.

nota: a ilustração deste post foi feita pela Tati Viana

Por favor, não me “toc”

3 março 2009 by Fernando Aureliano, 5 Comments
Por favor, não me “toc”

Alguns “dependentes” do TOC -  e eu digo dependente porque muitas vezes a gente fica a mercê de alguns rituais que vão definir se vamos fazer algumas coisas ou não – tem um momento de “não me toque”. De uma hora pra outra aquele psicopata que criamos dentro de nossa cabeça nos informa que a partir daquele momento, e por um tempo indefinido que pode ser pouco ou muito, ele diz que não podemos encostar em nada nem ninguém. É como se estivéssemos em um corredor estreitíssimo. E com isso pode vir também os “Cânions”, ou “rachaduras da morte” se preferir. Cada fissura no chão, cada arranhãozinho no piso parece um Cânion, ou uma mina, dependendo do momento. Qualquer passo em falso pode nos fazer despencar em um longo buraco sem fim, ou simplesmente (e esse é meu preferido) nosso psicopata pessoal nos informa que algo a nossa volta pode acontecer: um carro explodir, um prédio desabar, e todas essas maravilhas de nosso dia-a-dia. Tudo isso se simplesmente pisarmos naquele maldito risco no chão.

Os abismos dentro das mais ínfimas fissuras no chão geralmente vem de brinde no “não me toque”, mas às vezes ele também pode vir isoladamente.

Geralmente, quando o momento “não me toque” acontece comigo, o melhor é relaxar. Minha dica pessoal para se alguém acabar lhe tocando sem querer (ou querendo) é tocar nessa pessoa de volta uma quantidade pares de vezes, até seu psicopata pessoal avisar que é o suficiente. Isso é o que faço para “evitar” o caos que pode gerar o não cumprimento desse ritual. E não tem problema se todos acharem que você está em uma corda bamba dentro de um corredor estreito, lembre-se: você está salvando a vida deles.